terça-feira, 24 de agosto de 2010

CÂNTICO


Num impudor de estátua ou de vencida,


coxas abertas, sem defesa... nua

ante a minha vigília, a noite, e a lua,

ela, agora, descansa, adormecida.



Dos seus mamilos roxo-azuis, em ferida,

meu olhar desce aonde o sexo estua.

Choro... e porquê? Meu sonho, irreal, flutua

sobre funduras e confins da vida.



Minhas lágrimas caem-lhe nos peitos...

enquanto o luar a nimba, inerte, gasta

da ternura feroz do meu amplexo.



Cantam-me as veias poemas nunca feitos...

e eu pouso a boca, religiosa e casta,

sobre a flor esmagada do seu sexo.


José Régio

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