segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Luís de Camões - A Ilha dos Amores (excerto Canto IX)

Oh, não me fujas! Assi nunca o breve


Tempo fuja de tua fermosura!

Que, só com refrear o passo leve,

Vencerás da Fortuna a força dura.

Que imperador, que exército se atreve

A quebrantar a fúria da ventura

Que, em quanto desejei, me vai seguindo?

O que tu só farás, não me fugindo.
 

«Pões-te da parte da desdita minha?


Fraqueza é dar ajuda ao mais potente.

Levas-me um coração que livre tinha?

Solta-mo, e correrás mais levemente.

Não te carrega essa alma tão mesquinha

Que, nesses fios de ouro reluzente,

Atada levas? Ou, despois de presa,

Lhe mudaste a ventura, e menos pesa?
 

«Nesta esperança te vou seguindo:


Que ou tu não sofrerás o peso dela,

Ou na virtude de teu gesto lindo

Lhe mudarás a triste e dura estrela!

E se lhe mudar, não vás fugindo,

Que Amor te ferirá, gentil donzela,

E tu me esperarás, se Amor te fere;

E se me esperas, não há mais que espere!»
 

Já não fugia a bela Ninfa tanto,


Por se dar cara ao triste que a seguia,

Como por ir ouvindo o doce canto,

As namoradas mágoas lhe dizia.

Volvendo o rosto, já sereno e santo,

Toda banhada em riso de alegria,

Cair se deixa aos pés do vencedor,

Que todo se desfaz em puro amor.
 
 

Oh, que famintos beijos na floresta!


E que mimoso choro que soava!

Que afagos tão suaves! Que ira honesta,

Que em risinhos alegres se tornava!

O que mais passam na manhã e na sesta,

Que Vénus com prazeres inflamava,

Melhor é experimentá-lo que julgá-lo,

Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.

.



de Luís de Camões

in “Os Lusíadas” Canto IX, 79-83
 
 
Fixação do texto, e nota, de Hernâni Cidade:






Nota: O verso “E se me esperas, não há mais que espere” deve entender-se “Se me esperas, nada mais eu tenho a esperar, porque tenho a ventura que desejava”


Disse Luís de Camões: Que nunca tirará alheia inveja o bem que outrem merece e o Céu deseja !

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